
14 de jul. de 2011
ARREBOL

1 de ago. de 2010
TEMPO
Águas são moléculas inamarráveis, como o tempo
Que perpassa os mesmos moinhos
Que debulham nossos anos,
Encurtam nossos caminhos
E moem nossos enganos.
Não pergunte pelos ventos que giraram pás de moinhos.
Ventos são etéreos, como o mistério da vida,
Essa essência que valorizamos,
Como os perfumes que sentimos,
E que desaparecem, como ciganos,
Nas vielas de seus destinos.

18 de mai. de 2010
ESTAÇÃO DO TEMPO
Quando desci nesta estação, depois de tanta viagem, sabia exatamente o que o fado me poria na mochila...E temi não conseguir carregá-la!
Desci no escuro sem ter acendido ainda as luzes da alma...
E o fiz solitário.
Por longo tempo ouvi o trem se distanciado!
Não raro pensei em correr, mesmo descalço, em busca do ultimo vagão, pisando os dormentes lascados e os trilhos frios do rumo anterior.
Acho que nunca vou saber se senti forças para ficar ou se me faltaram forças pra seguir!
Sei que fiquei.
Hoje, tatuado pelo vento constante da vida que segue, espero a carruagem que flutua na história.
Vai me levar não sei aonde, nem sei quando!
Sei que vou e faço questão de embarcar como cheguei aqui: só!
10 de out. de 2009
SAUDADES III - PESSOA E ATAULFO
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?”
De forma mais direta, Ataulfo Alves já compusera um dos mais belos versos da língua portuguesa, expressão de sofisticadíssima simplicidade (proeza ao alcance exclusivamente dos poetas) ao falar de Saudades em “Meus tempos de criança”, poema-canção que tem como fecho “eu era feliz e não sabia”. É, no fundo, o sentimento de Pessoa em relação às rosas: “quero-as quando não as possa haver”.
Na sua singeleza, Ataulfo disse:
“Eu daria tudo que tivesse pra voltar aos tempos de criança
Eu não sei pra que que a gente cresce, se não sai da gente essa lembrança”
Na continuação, Pessoa reitera o conceito:
“Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...”
Essa “alma pobre e fria”, mesmo não mencionada nessa forma, está no lamento de Ataulfo, recordando a inf
“Aos domingos missa na matriz / Da cidadezinha onde eu nasci
Ai, meu Deus, eu era tão feliz / No meu pequenino Miraí
Que saudade da professorinha / Que me ensinou o beabá
Onde andará Mariazinha / Meu primeiro amor onde andará?
Eu igual a toda meninada / Quanta travessura que eu fazia
Jogo de botões sobre a calçada / Eu era feliz e não sabia”
19 de jul. de 2009
FILHOS QUE VEM E VÃO
Tolos que somos! Falta-nos entender a real mecânica da vida, bem como o tamanho exato do papel atribuído a cada um de nós, mais insignificante do que sonhamos e mais importante do que percebemos. Aliás, até conseguimos, muitas vezes, racionalizar; mas quem há de limar o casco grosso das nossos sentimentos? Ou costurar o tecido frágil de nossas emoções?
Na minha juventude houve um período em que foi moda a leitura do poeta libanês-americano Kalil Gibran e jamais esqueci o prazer que tive ao ler sua obra mais famosa, “O Profeta”, por me apaixonar pela força de seus versos desde a primeira leitura: fortes e suaves, cruéis e poéticos, duros e amorosos.
Lembrei-me de Gibran quando, 4 anos atrás, meu primogênito e sua esposa foram para os EUA (como, aliás, fizera o próprio Gibran no início do século passado); lembro-me novamente, agora, com o segundo filho – o do meio – já de passagem marcada para também estudar na América. Fica a filha caçula por perto, pronta para voar, como as pombas de Raimundo Correa (escrevi sobre o tema, aqui).
O trecho em que "O Profeta" fala dos filhos, mesmo poético, soa cruel a nós, pais, que temos dificuldade de entender nosso papel; ou que, mesmo entendendo, não conseguimos – quase nunca – que o coração concorde. Veja o que diz o profeta dos versos de Gibran:
“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos. Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas. Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar, nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós. Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria. Pois, assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que permanece estável.”
-()-
21 de jun. de 2009
ESPERANÇA
Nas vielas escuras dos meus pensamentosMal iluminados por meus olhos semi-abertos
Nas serranas imagens dos sentimentos
Navegam, inquietos, sonhos incertos.
E são pura esperança, nessa madrugada fria,
Eis que já é inverno no meu tempo de vida
Mas me enternecem, com inefável magia,
As certezas que ora habitam minh'alma ferida!
Sei que na próxima aurora a estrela renasce
E vai fazer luzir os caminhos dessa etapa,
A partir da estação feia que esfria-me a face .
Dos pingos gélidos dessa chuva que o ir empata
Me livraria, mesmo se toda lã do mundo usasse,
Pois tenho que ir, para onde ir e tenho data!
-o-
28 de mai. de 2009
TEMPO
Não pergunte pelas águas que passaram nos moinhos da vida.
Águas são moléculas inamarráveis, como o tempo
Que perpassa os mesmos moinhos
Que debulham nossos anos,
Encurtam nossos caminhos
E moem nossos enganos.
Não pergunte pelos ventos que giraram pás de moinhos.
Ventos são etéreos, como o mistério da vida,
Essa essência que valorizamos,
Como os perfumes que sentimos,
E que desaparecem, como ciganos,
Nas vielas de seus destinos.
-
15 de mai. de 2009
FADA DO CERRADO
Ainda não reencontrei as fadas do cerrado! Mas sei que estão por ai, à espreita e, dia desses, ganho - mesmo sem merecer - seu inefável abraço, seu beijo sapeca e o cafuné mais docinho!
Porque as fadas são assim, pura dádiva, sutil acalanto...
Mágico encontro que completará meus desígnios, culminará meu fado e fará valer a pena cada dor e cada engano, cada desatino e cada calo... nessa alma ralada!
Fada, fada, fada!!!
Olha, encantada que acarinho, flor do sonho, se apresse que o inverno já rasga as serras do Sul...
Mesmo que ao cerrado não traga neve ou geada, mas com ele vem a sêca fria.
Estação que vou carecer de seu encanto vestindo meu peito,
Como um poncho tecido em beijos
E bordado de ternura de fada...
-
18 de dez. de 2008
SAUDADES (COMPLETO)
Do que tenho eu saudade?A tenho d’alguns momentos,
Mas não de alguma idade!
Saudades de sentimentos
Limados na realidade...
Verdades que a vida ensina
Quando sabota ilusões:
“O homem vai cuidar do clima
Vida e Paz terão legiões,
Justiça estará por cima!”
Ah! Saudades de sonhos idos
Quando cria nas pessoas
Cria em dons prometidos
Em versos que eram loas
A valores já esquecidos!
“Honra, caráter, respeito”
“Luta limpa” ; “lealdade”
Saudade de pensar desse jeito
Não de ter menor idade
Com tanta mágoa no peito.
Saudade que pede censura
Do amor que pensava existir
Como um bem que sempre dura,
Que brilha sem queimar ou polir.
Saudade com nome? Loucura!
11 de set. de 2008
Um lugar chamado Ipauçu, o Panema e eu...
Assim vivi lá em Ipauçu toda essa etapa de formação de músculos e caráter, razão por que, quando precisei ir-me embora, cometi uma pequena canção, nesse estilo brega-sertanejo que depois virou praga.
Veja: tinha apenas 18 anos e tocava mal um violão, assim, a inspiração tinha limites de todos os tipos. Mas chegava até o Panema, jeito local de apelidar o Paranapanema, o rio que passa na cidade (divisa sul do estado de SP). Um belo rio...
Ai está a letra. Singela, pessoal e jovem (a canção quandocomposta, claro).
O meu Panema (1.971)
- I -
Quando a gente vai se embora
De tristeza a serra chora
Que não quer se separar
E se gente volta um dia
Pra fazer-lhe companhia
Ela põe-se a cantar
E na voz do meu Panema,
Ouço a vida tão serena
Que não quero mais deixar
O meu rio, o meu vale,
Minha vida, meu poema...
No mundo não há quem cale
O rolar do meu Panema!
(repete: No mundo não há quem cale
O rolar do me Panema).
- II -
Talvez um dia
Eu aceite a fantasia
Faça da vida poesia
E então volte pra ficar
Contar as mágoas
Pros gênios e pras fadas
Que vivem nas suas águas
Meu Panema meu lugar
O meu rio, o meu vale, etc...
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(Hoje essa canção me emociona um pouco mais porque o Raposa gostava dela e a cantava sempre. Agora o Raposa só canta no céu, junto com o Caju e com a Dona Miloca... Guenta ai turma!)
-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-
ESPERANÇA
Este é um recanto manso, imenso.
Água antiga de funda saudade,
Tempo vivido, campo e cidade!
Um mergulho infante e tenso
Uma vida descoberta, liberdade!
Saudade das emoções primeiras,
Baile, namoro, beijo assanhado,
Um vazio presente, um vivo passado,
O arquivo das letras ordeiras,
Pela dor do tempo gravado...
Passados colegas, mestres-guias,
Escolas intrigantes, integrantes,
Todos os povos, os imigrantes...
Saudade de viver em duas vias:
Quem se entrega, recebe antes!
Por fim, amigos n’outra dimensão
Por ora ensaiam a mais linda seresta...
Logo vamos cantar juntos, orquestra,
Sem contar tempo, sem galardão.
Há esperança mais linda que esta?
-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-
FOTO DE IPAUÇU – SP - 2008 (onde vivi dos 2 aos 18 anos)
8 de set. de 2008
SONETO DAS DATAS
Há datas que não gosto,
Gostos que eu não dato
Gestos que não acato
Postos onde me não posto.
Há vezes que não tenho vez
E viezes que me soam vãos..
Sons que me repetem nãos,
Vozes que me dão surdez.
Ruídos para o ouvido mouco,
Tanto grito e só o silêncio apraz...
Tantas datas que dizem pouco!
Em suma, eu já não sou capaz
De esconder que vivo louco
Pelo romance ao som da paz.
NO OUTONO DA VIDA
Prefiro ver e sentir o Outono ao norte do equador. Lá como cá, as folhas caem no Outono, pois conhecem o tempo e as estações e “sabem” que sua hora chegou e que devem deixar a vida para que outras folhas ocupem seu lugar. Mas, não se entristecem por isso; ao contrário, engalanam-se, explodem numa profusão de cores que só nesse tempo se vê. Cores inimagináveis ao sul do Equador.
Quando o Outono chega no norte é Primavera aqui (E a Primavera ao sul é mais bonita que a Primavera do norte).
Mas, sul ou norte, as folhas caem no Outono. O vento e a chuva, elementos do tempo e do tempo ajudam nessa queda. Mas no norte, quando o espectro de cores se completa, o vento em reverência, antes de derrubá-las de vez, faz com que bailem coloridas no ar, se misturem no céu, como um festival de bandeiras em feriado nacional (licença, Orestes Barbosa, Silvio Caldas). E a chuva as faz brilhar, mesmo no chão, antes que se conclua sua “saída de cena” e se inicie o processo de transformação em alimento para a flora.
Quando chega o Outono de nossa vida, acompanha-o a angustiante questão sobre como “sair de cena”, uma verdadeira “não opção” já decidida ao nascer. Como fazê-lo?
Com discrição, como as folhas fazem ao sul, à espera de ressurreição na primavera? Ou revestir a alma do turbilhão de alegria que as folhas do norte escolhem sempre, mesmo sabendo que não voltarão e que novas folhas surgirão nos galhos de onde saíram?
Fico pensando que essas folhas que se colorem com o anúncio de seu fim, que festejam o seu próprio fim, acreditam em vida eterna.


