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20 de fev. de 2009

SOBRE VAGABUNDOS


Dudu foi quem me levou a resgatar a imagem dos vagabundos afirmando que o melhor funcionário do mundo é o “vagabundo responsável”, aquele tipo que, para trabalhar menos, é capaz de ser criativo o suficiente para simplificar as rotinas de trabalho. O final de seu esforço mental precisa trabalhar só metade do tempo (redução do esforço físico) para atingir as metas... Parei para pensar e lembrei-me da minha avó usando um pesadíssimo instrumento chamado escovão (foto da esquerda) para esfregar, no chão de madeira, uma palha de aço. Feito esse trabalho insano, vovó espalhava cera, de joelhos, pelo assoalho. Horas depois, o escovão voltava a ser passado com uma flanela, para dar brilho. Minha mãe já foi beneficiada pelo esforço (mental) de um vagabundo qualquer que, horrorizado com a idéia de encerar o chão à moda das vovós, inventou a enceradeira. Enceradeira é um instrumento elétrico em desuso, mas que demandava 70% menos de esforço que o escovão.
Porém, mesmo a enceradeira era cansativa. Tinha que ser passada por todo o assoalho para limpeza (varredura), depois para espalhar cera e uma terceira vez para o brilho. Foi ai que um vagabundo ainda maior inventou o “sinteco” (cascolac) que dá um brilho permanente (pelo menos por alguns anos) no assoalho de madeira. Quem não gosta do tal sinteco, cobre o piso com carpetes e outras novidades modernas. Escovão, cera, enceradeira, nunca mais. Quem inventou a TV com controle remoto? Não sei o nome, mas, certamente foi um desses vagabundos sem disposição para levantar do sofá a cada 3 minutos para mudar de canal, aumentar o som, reduzir o brilho, etc. Do mesmo tipo de pessoa que inventou o câmbio automático, o aquecimento central e (porque não?) a energia elétrica, a carruagem sem cavalos, o avião... Alguém disposto a ir, em lombo de burro, de Fortaleza a Recife não se preocuparia em ter um automóvel; alguém feliz com uma travessia oceânica de navio a vela, à moda Cabral, jamais gastaria tempo inventando o avião. Um vagabundo inventou o elevador para não subir 20 andares de escadas todos os dias. Outro inventou a alavanca, para fazer menor esforço... Acho que você captou a idéia.
Gente maravilhosa como Dorival Caymmi, levou o direito ao menor esforço ao extremo (algo como uma composição por ano) e 1 "caymmi" poderia ser uma unidade de medida de esforço. Alcindo Ferreira, meu amigo e mestre, trabalha a aproximadamente 0,7 caymmi...
É isso! Quem inventou a máquina de lavar roupa? O lava-pratos? Liquidificador? Microondas? Tudo obra de vagabundo. Ô raça abençoada, pelo menos por nós outros vagabundos que não sab
emos inventar nada.

Dudu é o Carlos Eduardo Tavares de Andrade, hoje um aposentado do Banco Central, vivendo no Rio

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14 de jan. de 2009

Sobre Penicos

Dia desses fiquei de falar do penico um utensílio que já foi de intenso uso doméstico, mas que hoje é de uso cada vez mais restrito. E muita gente nunca o conheceu, pelo menos no auge de seu "estrelato". Segundo o dicionário, penico ou urinol é um “vaso apropriado para nele se urinar e defecar”. Também pode ser chamado “bacio” ou “bispote”, termos que, confesso, não conhecia! Feita a apresentação formal, vamos ao que interessa: a coisa real!
Tempos atrás, não muito (se você ainda não era vivo, sua mamãe já era - respeitosamente), havia grande dificuldade para construção de banheiros dentro das casas, por causa, principalmente, da falta de rede pública de esgotos. Por isso, havia necessidade de dirigir os dejetos a uma fossa séptica e assim, ao invés de banheiros internos – como é usual hoje – eram construídos numa “casinha” à parte, 20 ou 30 metros longe da “casa principal”. E diretamente sobre a tal fossa séptica.
Algumas poucas casas, de pessoas mais abastadas, dispunham de banheiro interno, mas raramente havia mais do que um banheiro em uma casa, mesmo que ali morassem, por exemplo, 20 pessoas, em seis ou mais quartos. Já havia chuveiros rudimentares, mas os banhos, normalmente em bacias e com ajuda de canequinhas, ficavam em ambientes separados, o que não impediu que ambos, o ambiente de banho e o ambiente sanitário, acabassem na história simplesmente como “banheiros”. Os edifícios de apartamentos talvez tenham sido os responsáveis pelo crescimento de uso de banheiros internos, até porque nos prédios altos nem há outra solução.

Mas, o que queremos contar é que, por conta dessas “dificuldades sanitárias”, diariamente as pessoas levavam para seu quarto e depositavam discretamente debaixo da cama, um penico
como esses ai da ilustração, principalmente para colher aquele xixizinho básico da madrugada. Evidentemente, as noites frias ou chuvosas desencorajavam uma caminhada até a tal casinha, além de haver sempre quem tivesse medo de sair de casa na madrugada. Por conta disso, nessas ocasiões, o penico recebia coisas mais sólidas, de forma que, ao amanhecer, os primeiros a acordar eram premiados com o cheirinho característico da penicaiada espalhada no chão e escondida pela beirada do lençol. Na cena seguida, após o cantar do galo ou o soar do despertador, surgia a fila de sonolentas pessoas, cada qual portando seu próprio penico como quem portava uma oferenda a um deus pagão, para limpeza desses utensílios no “banheiro” externo. Logo após essa “cerimônia”, o cheiro do café e o ar puro da manhã davam fim a essa sinfonia de cheiros colhidos na madrugada. E os penicos limpos eram recolhidos a espera da próxima noite.

[Os penicos ainda hoje são usados e atendem principalmente às pessoas doentes, nos hospitais e em casa, e nas muitas áreas que a saúde pública não alcança com suas redes de água e esgotos].

18 de dez. de 2008

ESCARRADEIRA

Era menino ainda quando me contaram que, muito antigamente, as pessoas costumavam ter na sala de visitas um curioso utensílio, hoje quase desconhecido, chamado “escarradeira”. Era assim: quando uma visita desejava cuspir, ou escarrar, era ali que se recolhia o resultado da “tossida” (veja o modelo da foto, bem bonito!). E era particularmente útil, segundo dizem, por ser a tuberculose bastante comum, à época (final do século XIX, início do XX), e por isso, quando a pessoa danava a tossir e escarrar, era bom mesmo ter um recipiente adequado... Ou um guarda-chuva (eca!)

Tudo isso como um preâmbulo para, em fim, dizer que se hoje todo mundo acha normal ser proibido fumar em tudo quanto é canto, mal sabem que, até 10 ou 15 anos atrás, não existia ambiente sem um “cinzeiro” (tem gente que nunca viu um...). Fumar era totalmente liberado aqui no planeta Terra: na sua casa, no elevador, no avião, no cinema, no metrô... O visitante, quando estava na sala da gente, simplesmente acendia o cigarro, sem pedir licença, pois era o ato mais “natural” do mundo! Se muito fino, oferecia cigarros aos “da casa” que normalmente se apressavam a oferecer um café – que faz boa dupla com o cigarro – e um cinzeiro, caso não estivesse previamente à mão, como seria normal! Havia cinzeiros de prata, de cristal, ouro, bronze, formatos estranhos, uma infinidade! Cheguei a ser um colecionador de cinzeiros...
Fumar era trivial. Nas viagens de ônibus, metrô, avião, como fosse, a maioria dos passageiros era fumante... Elevadores tinham cinzeiros incrustados nas paredes (no centro da cidade de São Paulo, nos prédios mais antigos, ainda os há!). Fumava-se na sala de aula, no cinema e no teatro. O ambiente de trabalho dispunha de cinzeiros em todas as mesas. E assim por diante...
Olhe aqui: em poucos anos alguma criança vai se escandalizar ao saber que as pessoas tinham cinzeiros em casa e que se fumava em qualquer lugar do mundo, exatamente como me escandalizei ao saber das escarradeiras. Voce também, né?
Dia desses conto a história do penico, também chamado urinol.

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